Pagina: ‘Palavras Cantadas’

Cotidiano

Lançada em 1971, pelo próprio compositor Chico Buarque, Cotidiano é uma conhecida canção brasileira, com letra e melodia belíssimas, que completam uma a outra provocando quem ouve a buscar os diversos sentidos que se escondem na poesia. Parece descrever um relacionamento monótono, mas a angústia que a canção gera, quando repetida em ritmo mais rápido, fala de alguém que está preso de um cotidiano, dentro de uma realidade da qual não pode escapar. Preso, sempre pela imagem da boca, numa série de fatos que se repetem, e que interrompem o que sente e pensa, fazendo com que se cale e cumpra as recomendações do dia: “essas coisas que diz toda mulher“.

Ouça a música na versão interpretada mais recentemente pelo DJ Marcelinho da Lua e Seu Jorge no clipe exibido abaixo, em que uma mulher vê-se presa em uma realidade assustadora. 

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Dia Branco

“Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva… Se a chuva cair.”

 

Dia Branco é um dos grandes sucessos da música brasileira. Composta por Geraldo Azevedo em parceria com Renato Rocha a letra faz promessas àquele que aceite acompanhar esse eu-lírico que canta. A garantia de que as promessas serão cumpridas está justamente na estrutura que elas têm. Não, este amante não promete demais, promete que no futuro, página em branco, ele garantirá o sol, se houver sol, e garantirá chuva, se houver chuva. Não, ele não se arvora a controlar o destino e prever o dia de amanhã, talvez promessas feitas assim, ele não pudesse cumprir.

Prometer um dia branco pode não ser uma promessa das mais precisas, mas é toda a certeza que podemos ter. E quem convida já avisa para que é este convite: é para vir comigo, para o que der e vier. Se a música é cantada entre dois que se amam, a letra ganha esse caráter do romance e da fidelidade. Mas e se imaginarmos que o eu-lírico canta para si mesmo? Talvez essa história de amor seja entre ele que convida e ele no dia futuro – não se sabe se com chuva ou sol – certo da promessa que fez para si mesmo: estará presente, íntegro, não abandonará a si mesmo, haja o que houver.

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A Terceira Margem do Rio

 

“Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa?
Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo.
Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento.”

(Guimarães Rosa)

Inspirada no conto homônimo de Guimarães Rosa, A terceira margem do rio é uma belíssima composição de Cateano Veloso e Milton Nascimento, gravada por Caetano no início da década de 90. O conto, uns dos mais tradicionais da literatura brasileira, fala de um homem que deixa mulher e filhos, constrói uma canoa e parte para o rio, sem nunca mais regressar a nenhuma das margens. Quem conta a história é o filho. O texto, carregado de densidade póética, abre espaço para várias interpretações.

Que lugar é este entre as duas margens do rio? Como se aproximar de quem  adentra por esse caminho, onde as palavras não falam mais, onde tudo é silêncio e mistério? E quem fica a margem, o que faz: lembra do outro, esquece? A música, um brilhante jogo entre significação e som, nos fala desse silêncio da palavra, desse espaço de impossibilidade de comunicação entre um e outro, entre nós mesmos e aqueles que vieram antes de nós, entre o homem e sua origem.

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De Frente Pro Crime

“É um velho costume da humanidade, esse de passar ao lado dos mortos e não os ver.”
(José Saramago)

Gravada no ano de 1975 por seu compositor João Bosco, De frente pro crime é um dos grandes clássicos da música popular brasileira. Com muita riqueza poética, João Bosco descreve a cena de um crime, sem ater-se ao que  motivou o ato, mas apenas como observador que percebe a multidão se aproximando de um corpo estendido no chão.

A letra abre espaço para diversas intepretações, mas o que nos salta aos olhos na imagem que a canção traz, é a indiferença de cada tipo social, voltado cada um para o seu interesse – político, econômico, profissional – perante uma vida que acaba. A frieza aparece na própria melodia, no samba que se faz sobre o “corpo estendido no chão”. Alerta para cada um nós: um convite para olharmos pelos corpos pelos quais passamos – nossos, daqueles a quem queremos bem ou de desconhecidos quaisquer – com mais sensibilidade e calor.

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Certas Coisas

“Nós somos medo e desejo
somos feitos de silêncio e som…”

Symphony, by Simon Bull

Symphony, by Simon Bull

Lançada pelo cantor e compositor Lulu Santos em 1984, Certa Coisas foi um dos maiores sucessos de sua carreira. Até hoje toca  nas rádios e é conhecida pelo grande público. O ritmo lento, canta sobre alguém que ama calado em meio a muito som, mas mais que a declaração apaixonada, a letra traz uma introdução que nos chama a atenção para a convivência entre os opostos.

Som e silêncio, luz e escuridão: um depende do outro para que possa ser definido como é. O que a letra nos convida a pensar é que talvez sentimentos opostos convivam dentro de cada um de nós e não só possam persistir assim, como talvez dependam um do outro para continuarem existindo. Uma bela definição sobre o que talvez sejamos, nós, os humanos – medo e desejo, silêncio e som – aparece na sequência, confirmando essa hipótese. Falamos, choramos, podemos gritar e fazermo-nos ouvir, enfim, somos feitos de muitos sons, mas vale sempre lembrar – principalmente nesse mundo barulhento em que temos vivido – que também somos feitos de silêncio, e talvez tudo o que não é dito, mas que perdura no tempo e nas pequenas ações de cada um, fale mais alto aos corações do que aquilo que nós chega pelos ouvidos.

A seguir, ouça a música, e acompanhe a letra da canção:

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Um Tempo que Passou

“O tempo escorreu
O tempo era meu
E apenas queria
Haver de volta
Cada minuto que passou sem mim.”

“Um Tempo que Passou”, composição de Chico Buarque e do cantor português Sérgio Godinho, é uma das provas de que muitas músicas de artistas brasileiros são mais conhecidas no exterior do que em nosso país. Gravada por Godinho, a canção virou sucesso em Portugal, mas é pouco conhecida no Brasil. A letra, belíssima, nos fala sobre um tempo que ficou perdido, talvez esquecido de viver, talvez vivido por alguém que o tenha “roubado”.

O mais belo, no entanto, é que aquele que canta reconhece que não é o único que perdeu algum tempo, que deixou-o “escorrer”. Junto com ele, enxerga outras milhões de pessoas que também tiveram algum momento de suas vidas que ficou no passado, que passou, que não mais volta e que não foi vivido por elas.

A poesia permite a falta de coerência, permite que assumamos a ocorrência de tempos de nossas vidas, os quais não tenhamos vivido. Todos experimentamos isso. Quando nos tornamos outros, muitas vezes, desconhecemos aquele que viveu o tempo passado por nós, em nosso lugar, ocupando a nossa existência, a forma como experienamos o presente pode ser completamente diferente daquela como experienciamos o passado. Ampliando esta ideia, cabe pensar que o tempo presente também será passado um dia, e também, possivelmente, não existamos neste futuro. Pode parecer confuso, mas é apenas a constatação de que o tempo presente, também, virá a ser “um tempo que passou”.

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Rede de Varanda

Voz nova no cenário da música brasileira, Juliana Kehl lançou recentemente  Rede de Varanda. A letra descreve o comportamento de uma mulher em uma relação amorosa marcada por idas e vindas. O clipe, que pode ser assistido abaixo, ilustra com imagens interessantes os conflitos a que a canção nos remete.

Ao ouvir a música, cabe sempre procurarmos expandir nossas possibilidades de compreensão. O que acontece a essa personagem que responsabiliza a “vida” por devolver-lhe às ilhas de sossego de uma relação e quando está nesta “rede de varanda”, expõe-se ao extremo buscando afastar de si aquilo que lhe garante paz? O comportamento soa estranho, pouco provável, ou nos remete a reações que temos perante situações de calmaria que a vida nos garante em certos momentos?

É de domínio público a expressão “bom demais para ser verdade” e muitas vezes as situações de tranquilidade nos assustam, acostumados que estamos a momentos de estresse e desorganização e às angústias que o nosso tipo de organização social e cultural nos trazem. Pode soar estranho, mas muitas vezes temos medo ou dificuldade em aceitar o bom, o tranquilo, a “varanda”… As razões podem ser muitas, dentre elas a proibição de sentir-se mal que sutilmente a cultura nos impõe. Quem, quando está em uma fase ruim, tem que constantemente fingir-se de feliz e realizado, pode não achar-se digno de assumir a bonança quando ela vem, já que não aceitou o período difícil quando passava por ele.

Aprecie letra e música, e deixe seus comentários!

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Infinito Particular

“O mundo é portátil
Pra quem não tem nada a esconder”

Conhecida na voz de Marisa Monte, Infinito Particular fala sobre alguém que se revela sem medo de expor suas contradições e que encontra o seu espaço em uma cultura repleta de diversidade. Pequenina e gigante ao mesmo tempo, a moça que se apresenta e convida o outro a conhecê-la afirma que não tem segredos e não receia que este outro desvende seus mistérios. Ao despojar-se assim das máscaras e proteções – fruto do medo de não encontrar um rosto que seja seu dentro de um universo plural – ela carrega consigo um mundo inteiro – onde possui várias faces, talvez – carrega o infinito naquilo que tem de mais próprio, de mais particular.

Assita o vídeo e acompanhe a letra:

Infinito Particular

Marisa Monte/ Composição: Arnaldo Antunes, Marisa Monte, Carlinhos Brown

Eis o melhor e o pior de mim
O meu termômetro, o meu quilate
Vem, cara, me retrate
Não é impossível
Eu não sou difícil de ler
Faça sua parte
Eu sou daqui, eu não sou de Marte
Vem, cara, me repara
Não vê, tá na cara, sou porta bandeira de mim
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular
Em alguns instantes
Sou pequenina e também gigante
Vem, cara, se declara
O mundo é portátil
Pra quem não tem nada a esconder
Olha minha cara
É só mistério, não tem segredo
Vem cá, não tenha medo
A água é potável
Daqui você pode beber
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular

Xote da Navegação

“Pra quem anda na barcaça
Tudo, tudo passa
Só o tempo, não.”

barcoNa voz de Elba Ramalho e Dominguinhos podemos ouvir o “Xote da Navegação”, composição deste último em parceria com Chico Buarque. O ritmo e a letra nos convidam a responder a seguinte pergunta: se a vida é um rio, como tenho navegado nela?

O xote descreve como navega a embarcação de nome Paciência que leva aquele que largou os afazeres e foi se dedicar ao sonho. Para quem anda na barca da paciência, tudo passa – as árvores e casas às margens do rio, os pescadores e os animais à beira d’água – só não passa o tempo, talvez porque o barqueiro navegue no próprio tempo. 

No entanto,  o mundo dos afazeres, da terra firme, continua a margear o caminho do navegante, tanto que ao fim da canção o capataz grita, impaciente, que a embaracação está andando para trás, mas nem isso altera rota do rapaz que navega na paciência.

Ouça a música e comente: como você tem navegado?

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Minha Casa

 

“Quero no escuro,
como um cego,
tatear estrelas distraídas…”

“Apesar do aparente desencanto, é, aos meus olhos (e ouvidos) uma canção de esperança.” É este o comentário que Zeca Baleiro posta em seu site, sobre a composição “Minha Casa”, gravada pelo cantor em 2000. equilibrio

Realmente a canção já começa em tom que inspira pouca esperança no ser humano, ao dizer que temos mais facilidade em cultuar mortos ou andar nas sombras, do que de nos voltarmos para a vida e para o calor do sol. No entanto, o compositor está certo ao dizer que a canção fala de esperança, pois fala de alguém que se nega a percorrer este caminho mais fácil, este caminho de comodismo, conveniência  e conformação. Fala de alguém que no escuro, tateia a procura das estrelas que distraidamente tenham permanecido acesas, mesmo quando anoiteceu.

Na canção, Zeca Baleiro opõe aquele que caminha, que atravessa a passarela com a escola de samba, àquele que sentado no portão de sua casa, simplesmente espera que a escola – e esta escola é a vida – passe por ele. A este que espera sentado, o compositor não deixa de provocar com a pergunta:  “onde estão seus tamborins?”

Clique abaixo  para assistir o clipe e acompanhar a letra da canção!

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